Sintomas
Descrição dos sinais frequentemente associados ao sihr (feitiçaria), ao mau-olhado e à presença de jinn, adaptada do material do Sheikh Ben Halima.
A — Sihr (Feitiçaria)
É o efeito mais frequente, e aquele que Allah dá como exemplo do mal que pode vir da feitiçaria: “...aprendiam deles o meio de semear a discórdia entre o homem e a sua esposa...” (Alcorão, Al-Baqarah 2:102). Dois sinais são especialmente característicos: a mulher deixa de suportar a relação íntima ou de sentir prazer; e o casal discute sem motivo, entendendo-se bem à distância e discutindo assim que voltam a estar juntos.
Estes sinais surgem subitamente após um período de vida normal, ou logo no início da vida em comum. Os conflitos normais distinguem-se destes porque assentam em razões reais e compreensíveis, que se resolvem com diálogo. O sihr não exclui a existência de problemas verdadeiros no casal, mas torna impossível resolvê-los adequadamente. Se nada for feito, as discussões agravam-se até destruir o afecto — sobretudo quando as famílias se envolvem. Por isso é importante identificar o problema cedo.
O sihr também pode ser usado para impedir a mulher de ter filhos ou o homem de ter relações. Na mulher, pode manifestar-se por ausência de menstruação, ausência de gravidez, abortos espontâneos ou morte do bebé antes do nascimento. No homem, por ausência de erecção, ou perda dela ao aproximar-se da esposa.
A pessoa reúne todas as condições para conseguir emprego mas, sem razão válida, todas as tentativas falham. O emprego é prometido ou dado como garantido, e algo acontece que o impede — ou a própria pessoa sente falta de energia e de ambição para o procurar.
Pode manifestar-se de várias formas: o estudante não consegue raciocinar e apenas decora; esquece tudo o que estudou; tem dores de cabeça sempre que tenta estudar; surgem problemas exactamente na época de exames; ou fica sempre ligeiramente abaixo da média necessária, apesar de esperar passar.
O sihr pode causar perturbações graves de saúde. Já se referiu a esterilidade na mulher e a impotência no homem. No material original são também mencionadas doenças como cancro, hemofilia, diabetes, insuficiência renal ou dos ovários, água nos pulmões, queda de cabelo, eczema e psoríase.
As respostas médicas descritas nestes casos costumam ser: “não há nada de anormal, está tudo bem”, embora a pessoa continue a sofrer; “há um problema, mas nunca vimos um caso assim”; “é stress”, seguido da prescrição de antidepressivos; ou “tem esta doença, mas não percebemos como surgiu”. Em todos os casos, o tratamento não existe ou não resulta.
A pessoa perde toda a motivação e não inicia nada. Adia constantemente, dorme demasiado, começa alguma coisa e desiste pouco depois.
A pessoa não ama realmente a outra, mas fica obcecada por ela: pensa nela constantemente, vê-a em todo o lado e julga estar apaixonada, quando não há afinidade nem razão lógica para essa atracção. Não há sentimentos verdadeiros envolvidos, e o desejo de casamento assenta noutros motivos ou interesses.
A pessoa perde o bom senso, duvida de tudo e de todos, fala sozinha, julga ser outra pessoa, vê coisas e estabelece ligações estranhas entre acontecimentos sem relação.
Quanto à morte: a pessoa pode sentir-se tentada ao suicídio — sentir algo a empurrá-la para a janela, querer cortar-se, tomar medicamentos em excesso ou atirar-se à frente de um carro. Pode também sofrer acidentes muito graves ou escapar por pouco a eles.
A pessoa obedece sem questionar ao feiticeiro, ou a quem mandou fazer o sihr, sem resistir nem manifestar desacordo. Longe dessa pessoa, pode arrepender-se da submissão e até tentar afastar-se; mas, na maioria dos casos, defende-a quando alguém tenta intervir. Este tipo de sihr é usado para explorar alguém financeiramente, para uma esposa dominar o marido (ou o contrário), para uma mãe controlar os filhos, ou para o feiticeiro usar alguém como auxiliar.
Nas crianças, o sihr afecta sobretudo o comportamento e os estudos. A criança faz asneiras repetidamente e não pára, independentemente do castigo; não compreende o que se passa consigo e sente-se incapaz de se comportar de outra forma.
- Auto-clausura: a pessoa quase não sai de casa, ou não sai do país.
- Perda de dinheiro, ou incapacidade de voltar a ganhar até gastar o que ganhou.
- Irritabilidade constante.
- Personalidade instável: mudanças permanentes de decisão, ideias, atitude ou humor.
- Dúvida doentia, medo e angústia.
- Sequência interminável de problemas e infortúnios.
- Sihr herdado: a criança recebe-o ainda no ventre da mãe. Costuma acompanhar-se de saúde fraca, desobediência e recusa em aprender, por vezes até ao fim da adolescência. Como não era dirigido a ela, os efeitos são irregulares.
- Sihr condicional: o casal separa-se após o nascimento do primeiro filho; o marido perde o emprego sempre que a esposa passa a trabalhar com ele; e assim por diante.
Há também quem procure o sihr para “ter sucesso” — conseguir emprego, passar em exames, obter a carta de condução, ganhar um processo ou atrair clientes. É igualmente proibido e retira a pessoa do Islão, tal como o sihr feito para o mal. Não há limite para aquilo que pode ser programado através do sihr.
Numa casa pode provocar discussões e acidentes. Numa loja, discussões, quebra de actividade e acidentes. Num carro, acidentes e avarias. O sihr pode ser dirigido a qualquer objecto.
A chegada do sihr é frequentemente anunciada em sonho: a pessoa é mordida por um animal, ferida por alguém, ou cai sem parar. Pode ver serpentes, mortos ou cemitérios. Pode ainda ver quem lhe está a fazer mal.
O sihr divide-se em quatro tipos: ingerido (na comida), pisado, colocado dentro do corpo, e feito à distância.
Ingerido: em cerca de 95% dos casos provoca perturbações digestivas — problemas de estômago ou intestinos, ardor, náuseas, vómitos, nós, gases, picadas. São em geral permanentes, sem explicação médica. Quando alguém tem estas queixas digestivas juntamente com outros sinais já descritos, é provável tratar-se deste tipo. Pode também ser ingerido por acidente, por pessoa diferente daquela a quem se destinava.
Pisado: é sobretudo acidental. Afecta principalmente a pele — cortes, eczema, psoríase — em zonas do corpo, sobretudo nas pernas, por vezes mudando de lugar e sem explicação médica. Pode causar queda de cabelo ou fraqueza nas pernas. Não separa casais nem impede o trabalho: o efeito é apenas físico. Por vezes é colocado no caminho de alguém, normalmente à porta de casa, e nesse caso produz o efeito pretendido.
Colocado no corpo: o feiticeiro envia jinn para colocar o sihr dentro do corpo da vítima. É geralmente colocado nos ovários para impedir a gravidez, nos órgãos sexuais masculinos para causar impotência, ou em qualquer parte do corpo para provocar dor e disfunção. Serve também para manter os jinn ligados ao corpo: enquanto o sihr lá estiver, o jinn não sai, e o Raaqi não conseguirá retirá-lo sem antes remover o sihr. Suspeita-se deste tipo quando há uma dor permanente ou recorrente num ponto certo.
À distância: é o mais comum, e pode ser complicado pelo uso de símbolos. Um símbolo pendurado domina a pessoa, que anda em círculos e regressa sempre ao mesmo ponto; pode afectar o estado mental, com dúvida, medo, indecisão e mudanças de humor, além de peso na cabeça e sonhos de subir e ser atirado abaixo. Enterrado, suga a força e a energia, causando sono agitado e sensação de fracasso. Enterrado num cemitério, torna a pessoa apática e melancólica, sem futuro, pensando na morte e sonhando com mortos. Colocado num poço, mantém a pessoa “no fundo do poço” naquilo a que se destina — por exemplo, num ciclo permanente de pobreza.
Outros tipos: sihr ligado à menstruação, causando problemas ginecológicos e dificuldades na relação do casal; sihr com corrente ou cadeado, que prende a pessoa e bloqueia os seus negócios; nós, usados para bloquear a comunicação (discute-se por nada), para criar obstáculos sucessivos, ou para prender o pensamento — os nós aparecem em sonhos sob a forma de serpentes. O alcatrão é usado para criar escuridão: a vítima vê a vida em tons escuros e as pessoas afastam-se dela. Usam-se ainda bonecos com agulhas, que provocam picadas em várias partes do corpo, e que podem ser queimados, cortados ou enterrados.
Todos os tipos acima podem combinar-se sem limite. Se não for tratado, o sihr permanece toda a vida e vai-se acumulando. Alguém com muito ódio pode repeti-lo regularmente até a vítima acumular um número muito elevado de feitiços e perder totalmente o controlo da sua vida.
Por vezes o feiticeiro cria vários feitiços de uma só vez, de modo que, sempre que um é removido, o seguinte começa: a pessoa melhora alguns dias e volta a adoecer. O feiticeiro pode também receber informação através do jinn e repetir o sihr ao saber que a vítima está a ser curada. No primeiro caso o sihr é diferente de cada vez; no segundo é repetido — situação rara, que acontece quando o feiticeiro quer pessoalmente fazer mal.
- Calor em todo o corpo — a reacção mais típica do sihr: está a arder.
- Sensação de coisas a sair do corpo — o sihr está a sair.
- Peso, arrepios, não suportar ouvir o Alcorão, falta de ar ou angústia — indica presença de jinn.
- Relaxar, acalmar e adormecer — ou o sihr foi feito para causar angústia e o Alcorão está a reduzi-la, ou foi feito para causar cansaço permanente e o Alcorão traz finalmente um sono reparador.
- Mover-se ou falar sem vontade própria — há um jinn.
- Dores de cabeça — jinn dentro ou fora do corpo, ou sihr dirigido à cabeça.
- Várias reacções diferentes — problemas combinados, normalmente seguidos de cansaço e exaustão.
- Pouca ou nenhuma reacção — problema pequeno ou inexistente, ou jinn a actuar a partir do exterior.
Se a pessoa não reage à recitação mas apresenta outros sinais claros, o tratamento continua a ser necessário. A recitação do Alcorão não é, por si só, um instrumento de diagnóstico exclusivo.
Muitas vezes procuram-nos por uma filha se ter apaixonado por um não-muçulmano, julgando ser sihr. Nesses casos tratava-se de amor natural. A mudança de comportamento e o afastamento da família resultam sobretudo de falta de diálogo e de abertura, e de a jovem não ter confiança para falar com a família. Isso não exclui que possa estar enfeitiçada, mas não é a explicação habitual.
Alguns pensam que se deve apenas “confiar em Allah” e recusam relacionar os seus problemas com o sihr. Recorde-se que o Profeta ﷺ disse que Allah criou para cada doença o seu remédio, e mandou tratarmo-nos. A saúde, o tempo, o dinheiro e as relações são dádivas de Allah, e não se deve perdê-las por negligência. Mas é igualmente um erro atribuir ao sihr problemas que não vêm dele: isso faz perder tempo e não leva a lado nenhum.
Uma pergunta estabelece a diferença: estes problemas têm uma explicação lógica? Podem ser resolvidos normalmente, com esforço e meios adequados? Note-se ainda que o sihr agrava frequentemente uma fraqueza já existente — cólera, dúvida, timidez — e que por isso o mesmo sihr não produz o mesmo efeito em pessoas diferentes: num casal sólido e respeitoso cria mal-entendidos, enquanto num casal marcado pelo orgulho e egoísmo pode destruir a relação.
B — Al-Ayn (Mau-Olhado)
O mau-olhado é o mais leve dos três problemas. Normalmente a pessoa não tem consciência dele e não procura tratamento: sente-se pesada, cansada e sem energia. Deve ser tratado sobretudo quando atinge um ponto específico e “parte” uma aptidão ou qualidade — por exemplo, o estudante que teve um resultado excelente, deu que falar e nunca mais conseguiu repetir o sucesso; ou o desportista muito aplaudido que deixa de evoluir ou passa a ter acidentes com frequência.
Os bebés podem ser bastante afectados: febre, perda de apetite e de sono. Isso abre ainda oportunidade para os jinn da casa os assustarem — é a explicação mais comum para os medos nocturnos das crianças. Nesse caso trata-se a criança do mau-olhado e a casa dos jinn. Muita gente julga ter mau-olhado por ter “falta de sorte”, mas isso é sihr.
Algumas pessoas têm esta força: assim que olham para algo com admiração, aquilo parte-se ou deteriora-se. É um efeito espiritual que não se explica por leis físicas, e felizmente são poucas. Na maior parte dos casos, esse olhar de admiração traz consigo inveja. O mau-olhado pode atingir uma pessoa, uma família, um veículo, uma loja ou uma casa.
Existe ainda o mau-olhado colectivo: começa a falar-se de alguém, do seu sucesso, da sua beleza ou da sua força, e a energia da pessoa quebra-se — torna-se apagada e sem êxito. Aplica-se também a coisas: um negócio próspero que subitamente vai à falência. O mau-olhado pode ainda vir de um grupo de jinn.
C — Jinn
Há várias razões para um jinn interferir com um ser humano, mas há sempre uma razão. Em todos os casos seguintes existem três possibilidades: o jinn está dentro do corpo, fora dele, ou entra e sai à vontade. Quando está dentro, pode possuir a pessoa e falar através dela — de forma permanente, periódica ou ocasional.
É a razão mais frequente. O sihr não exige a presença de jinn, mas por vezes são enviados para reforçar o seu efeito: para separar um casal, o jinn faz o marido parecer repugnante aos olhos da esposa; para impedir o trabalho, faz o empregador desconfiar dele. O que mais fazem, porém, é perturbar mentalmente a vítima, com pensamentos contínuos, como se alguém lhe falasse dentro da cabeça todo o dia. Participam também em doenças e dores físicas. Os jinn enviados por sihr são obrigados a fazer o trabalho: os bons fazem-no com relutância, os maus acrescentam ainda mais.
Os jinn vivem à nossa volta, sobretudo em lugares desocupados, sujos ou húmidos. Um gesto brusco sem dizer “Bismillah”, deitar algo fora ou despejar água quente pode atingi-los e causar-lhes dano ou morte — e então retaliam. A pessoa pode ficar parcialmente paralisada, sentir peso, angústia ou depressão, ter pensamentos perturbadores, acompanhados frequentemente de pesadelos em que é perseguida ou agredida. Os jinn têm menos razão e mais paixão do que nós, com três paixões fortes: orgulho, amor e vingança.
Se nos despimos sem dizer “Bismillah”, os jinn podem ver-nos, e podem sentir-se atraídos. Actos sexuais proibidos são igualmente uma porta aberta. Os jinn masculinos apaixonam-se por mulheres e as femininas por homens.
Frequentemente o jinn permanece incógnito e a pessoa tem sonhos eróticos, regulares e mais frequentes do que o normal. Algumas pessoas sentem-se bloqueadas ao deitar-se e libertam-se ao acordar ou ao pronunciar o nome de Allah. Quando a pessoa casa, o jinn pode não aceitar o cônjuge, e então ela deixa de o suportar — o que sucede sobretudo às mulheres, devendo o marido agir com ternura para não gerar conflito.
No mundo dos jinn a formação de casais funciona de modo diferente do nosso: não há rituais nem testemunhas, basta o afecto para o laço ficar selado. Por isso se tornam rapidamente muito apegados e ciumentos, e defendem o seu par contra qualquer rival — mesmo jinn verdadeiramente muçulmanos se podem ver nessa situação.
Os jinn têm uma vida simples: não constroem nem transformam o ambiente, instalam-se no que encontram e alimentam-se de restos. Quando um jinn vive dentro de um corpo humano, está alimentado e alojado, e por isso alguns entram apenas para se abrigar. Mas precisam de uma “ponte” para entrar: sihr, mau-olhado, ou um momento de fraqueza — cólera, tristeza ou medo. A partir daí, as orações de protecção deixam de bastar, porque a ponte já existe: é como uma ferida aberta que atrai micróbios, para a qual a higiene habitual já não chega.
Por vezes o jinn não se manifesta e a pessoa nada sente, além de peso na zona do corpo onde ele está. Pode haver interacção entre os dois: o jinn transmite medo, alegria, depressão, cólera ou repulsa — sobretudo pela religião — e a pessoa também pode impor os seus sentimentos ao jinn, ou forçá-lo a sair. Havendo dois jinn no mesmo corpo, podem interagir até um dominar o outro.
Quando alguém progride no Islão, os demónios podem enviar um jinn especial para o prejudicar: tenta irritá-lo, envolvê-lo em discussões, afastá-lo da adoração e levá-lo ao pecado. Poucos conseguem dominar o seu demónio, mas é importante ter consciência disso. Um jinn muçulmano também pode entrar apenas para se alojar, ou converter-se depois de entrar — passando a ajudar a pessoa contra os jinn maus, que ficará dividida entre influências boas e más. O estatuto do jinn pode mudar ao longo do tempo: vem por sihr, depois apaixona-se, ou permanece já só para se alojar.
Casas velhas e abandonadas estão quase sempre habitadas, e as novas muitas vezes também. É mais fácil um jinn entrar e ficar do que os moradores impedirem-no.
Na maioria das vezes passam despercebidos. Quando são crentes e praticantes, sente-se um ambiente leve e agradável; costumam viver junto de muçulmanos praticantes, em casas animadas pelo Alcorão, pela oração e por conversas religiosas, procurando esse ambiente para progredir na religião. Infelizmente estes são raros: a maioria não é boa nem má, e os mais notados são os maus, que detestam os muçulmanos praticantes. Com estes em casa sente-se um ambiente pesado. As crianças pequenas sentem-no mais e podem vê-los sob diferentes formas, sofrendo perturbações do sono e pesadelos.
A convivência acaba, mais cedo ou mais tarde, por levar os moradores a atingi-los sem querer e a sofrer a sua vingança, ou a despirem-se sem dizer “Bismillah”. E se algum membro da casa estiver enfeitiçado, torna-se um alvo fácil. Quando os jinn são enviados para uma casa por sihr, agem directamente para prejudicar quem lá vive.
Texto adaptado e traduzido do material sobre Ruqya do Sheikh Ben Halima. Confirme sempre os pormenores com um Raaqi de confiança.